quarta-feira, 18 de março de 2015

O Perfume da Vergonha

O Perfume da Vergonha




A vergonha é um sentimento penoso, que nos assola, e que nos molesta. Sentimos vergonha quando achamos que estivemos aquém de nós próprios, quando sentimos o peso da desonra, ou, quando o carácter fica macilento. Daí entendermos comummente que o pejo evita atos indecorosos evitando a indignação e revolta.
Vergonha foi o que eu senti, não só como advogada, mas também como cidadã, quando ouvi as palavras proferidas pelo colega Dr.º João Araújo, um banquete explícito de ofensas, ornamentado com palavras bastante tenazes e ofensivas no dia 16 de Março. Não foi parco nas palavras, não se coibiu de ser inconveniente e de insultar uma jornalista dizendo-lhe que cheirava mal e que deveria tomar banho resvalando este discurso para um final cavernoso quando diz “esta gajada mete-me nojo”. Senti vergonha!
Um advogado é indispensável à administração da justiça e, como tal, deve ter um comportamento público e profissional adequado à dignidade e responsabilidades da função que exerce, reforçando ainda no seu n.º2 que, a honestidade, probidade, rectidão, lealdade, cortesia e sinceridade são obrigações profissionais, artigo 83.º do Estatuto da Ordem dos Advogados. Não se coaduna de todo com o cenário ocorrido aos pés do Tribunal Constitucional, onde ganhei vertiginosamente naqueles instantes consciência de todos os músculos do meu corpo devido ao contorcionismo itinerante que perseguia avidamente cada palavra temerária do Doutor João Araújo.
Uma falta de savoir faire grotesca, um comportamento indelicado que varou grosseiramente o Estatuto da Ordem dos Advogados desrespeitando-o e, pondo em causa os deveres e o papel do advogado na sociedade. Independentemente dos motivos que possam existir e que, não são descortinados, lamento este triste episódio, que ofende, desprestigia e faz enrubescer a classe, onde a vergonha saiu de cena entregando o seu papel principal à arrogância e à falta de cortesia e profissionalismo. Creio na resiliência da vergonha e na sua constante metamorfose, esperando assim que ela espreite e levante a sua bandeira de desculpas, demonstrando que a inteligência suplantou a vaidade de forma a subir nas escadas da moralidade, fazendo
desta forma respirar e viver a honra dos advogados! 

Uma cidadã e advogada.

A Declaração Universal dos Direitos do Homem não é um esboço!

A Declaração Universal dos Direitos do Homem não é um esboço!



O apelo da Amnistia Internacional tem estado na ordem dia, no que diz respeito à suspensão voluntária do direito de veto dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da Organização dos Nações Unidas de forma a barrar resoluções quando estão em causa situações de genocídio, crimes de guerra e crimes contra a humanidade. Penso que a opinião é consentânea e pouco efervescente, quando nos reportamos a 2014 e nos deparamos com as falhas gravíssimas e reiteradas na proteção de milhões de pessoas subjugadas à violência hedionda dos seus governos ou de grupos militantes armados, como no Estado Islâmico, o Boko Haram ou Al-Shabab. Se atentarmos para o relatório anual das Nações Unidas sobre a situação dos direitos humanos no mundo, divulgado 25 de Fevereiro do presente ano, a Amnistia Internacional cataloga o ano anterior como “um ano catastrófico” e “devastador” no que diz respeito a milhões de pessoas que sofrem em zonas de guerra ou foram envolvidas em conflitos. Não é necessário sermos cidadãos muito atentos para nos apercebermos que os exemplos não são parcos, a guerra civil em curso na Síria já ceifou 200 mil vidas, o Estado Islâmico, que se apoderou de uma extensa parcela territorial do Iraque, ao assalto a Gaza pelas Forças de Defesa de Israel assassinou mais de 2000 pessoas, aos crimes pérfidos de Boko Haram na Nigéria ou à violência sectária e religiosa na República Centro-Africana e no Sudão do Sul.
Todas estas situações têm despoletado uma ataraxia revoltante por parte da comunidade internacional. Todos os dias somos bombardeados com informações que nos fustigam a sensibilidade e verificamos que a inércia tem sido gutural perante as atrocidades que se materializaram e materializam com as repressões, violações, ataques, perseguições e esventramento aos direitos humanos em praça pública. Esta amorfidade dolosa em não ter assistido milhões de pessoas, tanto no holocausto do mar mediterrâneo, ou na Síria onde mais de 7 milhões de pessoas foram compelidas a deixar os seus lares tem provocado uma grande revolta ígnea e desconcertante. O problema é que esta facínora encontra-se escudada sobre um chavão blindado à prova de direitos humanos, que nos convence que tudo isto é necessário para manter a "segurança nacional" (o que também se pode ler no relatório).
Não me consigo conformar com o olhar desinteressado, com o assobio de soslaio, com o fracasso internacional miserável que todos temos presenciado, tudo isto desagua numa morfogénese dos direitos humanos fazendo-os recuar no tempo e status envergonhando-os. Há 60 anos, em Paris, no dia 10 de dezembro de 1948, os representantes dos 56 países membros da Organização das Nações Unidas aprovaram a Declaração Universal dos Direitos Humanos. O texto foi ratificado com 48 votos
a favor, 8 abstenções e nenhum voto contra.Os números de mortes registados em 2014 são um ultraje que fazem corar essa data!


Re-Food - Quando o desperdício se torna vital

Re-Food - Quando o desperdício se torna vital




Para percebermos a origem desta distinta iniciativa, teremos de recuar até 2011, quando Lisboa se deparou com uma figura emblemática e singular, inicialmente conhecido como o “estrangeiro maluco” que conduzia uma bicicleta e distribuía por famílias carenciadas sobras de alimentos que recolhia de restaurantes. Esse probo “estrangeiro maluco” chama-se Hunter Halder, e é o fundador de um dos projetos mais solidários e virtuosos alguma vez implementados em Lisboa, o Re-food.
Investido de uma perspetiva utilitarista, assume como objetivo principal o resgate das sobras alimentares dos diferentes estabelecimentos de forma a aquecer estômagos vazios, aferir esperança e combater os espasmos espectrais da fome. Um utilitarismo, que segundo a minha ótica, completamente fascinada pelo projeto, remonta taxativamente à doutrina ética postulada por Jeremy Bentham e John Stuart Mill defendendo que as ações são boas quando tendem a promover a felicidade e más quando tendem a promover o oposto da felicidade, enaltecendo o princípio do bem-estar máximo.
Assim, o Re-food é o resultado da projeção e materialização de um esforço humanitário de cariz voluntário a nível local, onde os voluntários reúnem empenho e amor em prol do próximo, guiados por uma moral eudemonista coletiva. É bastante sensibilizante a solidariedade humana que se sente no interior destas instalações, onde tive o privilégio de presenciar, no Re-food da Freguesia da Estrela, e desde já os meus parabéns para a equipa fantástica e incansável, o cuidado e a dedicação que se sentia nas mãos e palavras dos voluntários ”Esta refeição é para aquecer porque o casal não tem eletricidade.” Deixa-nos a pensar, a fome, esse flagelo social, um czar impendioso, segundo as palavras de N. Nekrasov, que apenas pode ser combatido com comida, e não através de palavras preocupadas ou opiniões não comestíveis, comida resgatada pelas equipas de cidadãos que salvam mais de 20.000 refeições por mês, a um custo real de menos de 10 cêntimos por refeição. Um modelo brilhante, portador de uma extensão solidária desmesurada, eficiente e eficaz, otimizando assim os recursos comunitários que anteriormente se encontravam subaproveitados.Tudo isto através de uma fórmula simples e inovadora que em
simultâneo é gratificante para quem ajuda e nevrálgico para quem recebe essa ajuda.
Como podemos ver, tudo começou com um homem, uma visão e uma bicicleta, e esse homem “estrangeiro maluco” faz eco a Kafka quando dizia que os bons vão ao passo certo, os outros, ignorando-os inteiramente, dançam à volta deles a coreografia da hora que passa. As horas com a impetuosidade do tempo transformaram-se em dias, meses e anos, e hoje, deixa atrás de si um legado inebriante e inspirador que nos obriga a dobrar e a fazer uma vénia a Hunter Halder e, a todos os seus séquitos.

Parabéns!

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015


Birdman, uma esperada virtude da Mestria


Alejandro Iñárritu, soçobra-nos desde sempre a um cinema não convencional, com a polarização da comunicação, narrativas com quebras de organização cronológica, câmaras desequilibradas pelas emoções e bandas sonoras verdadeiramente inspiradoras!
Amores Perros encontra-se submerso numa estética da brutalidade, de violência real e desconfortável numa narrativa fragmentada, diferente do mundo isotérico das 21 gramas da alma de cada um de nós, metaforizando o que perdemos e ganhamos durante o nosso percurso de vida, que nos compadece com a fragilidade da vida e embevece com a delicadeza de Naomi Watts. Babel, um grandioso momento do cinema, enaltecendo a inocência dos atos, galvanizando o mito bíblico, é um filme inefável e intemporal. Depois de fechar esta “trilogia da vida” onde a disparidade urbana, existencial e identitária está inculcada, somos brindados com Biutiful, um belo drama intenso familiar onde acompanhamos a arco de degradação de Uxbal, marcado pela sobrenaturalidade, suspense e, pela relutância indómita da partida.
Todo este cenário emoldurado pela singularidade do ethos, choque e moléstia que fazem perder a cor das fronteiras de sentimentos antagónicos, se modifica quando Iñárritu foge à sua zona de conforto e nos presenteia com uma maravilhosa comédia, mudando assim drasticamente todo o seu norte cinematográfico à qual não estávamos habituados. Birdman, uma verdadeira ópera gutural de entretenimento orquestrada com uma grande mestria, protagonizado pelo inebriante Michael Keaton, que vive na sombra que o assombra de uma antiga glória procurando incessantemente ser reconhecido pelas ovações teatrais. Envolvidos por este mundo absorvente, entre cortinas e corredores, é difícil estabelecermos uma destrinça entre a "vida real" e a encenada pelos atores, o que, antieticamente nos absorve e apaixona. Uma dicotomia, porém amorosa, entre a realidade e a ilusão onde o almejado se manifesta pela voz grossa e figura ubiquista de Birdman, o seu alter-ego sarcástico, indissociável de Riggan. Birdman é uma voz omnipresente que questiona todos os seus atos, retratando o mundo físico e palpável que o rodeia, tudo isto captado por uma câmara indiscreta que sequiosamente persegue todos os atores de forma sequencial. Um filme crítico a Hollywood, à Broadway alastrando-se para a indústria do entretenimento e, em especial ao ego singular e à definição de arte, fazendo-nos questionar a cada minuto qual a nossa
relevância e missão individual no mundo. Desta vez não somos deliciados pelas mágicas e sensíveis mãos de Gustavo Santaolalla, que nos remexe o interior mais cavernoso e iluminado transportando-nos com tanta delicadeza para diferentes estados de espírito mas somos sim empurrados pelos frémitos das mãos fortes de Antonio Sanchez a um ritmo de baquetas esquizofrénicas mas que se silenciam para deixar brilhar as cenas de atuação.
Um banquete emocional agridoce, poético, portador de um âmago do tamanho da pupila desmesurada de Iñárritu, expurgado de pudicícia, transborda simbolismo, com um clímax maravilhosamente pessoal e complexo, faz-nos perscrutar silenciosamente o nosso sentido em analepse.Tudo isto com o toque indelével de um dos melhores realizadores de sempre, esperemos que este novo registo seja o crepúsculo de uma aurora futura!

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

"Não lhe posso bater sou um Homem!"


Quem é que ainda não viu o video mais comovente dos últimos dias?
Este vídeo foi produzido por um jornal italiano “Fanpage” no âmbito de uma campanha de sensibilização versando acerca da reação das crianças relativamente à violência contra as mulheres. Após uma breve apresentação dos meninos com idades compreendidas entre os sete e os onze anos, estes são surpreendidos pela presença inesperada de uma menina, Martina. Depois da sua introdução e da timidez latente são exortados a ter atitudes carinhosas para com ela, que as têm, até que, na parte final, é-lhes dito para lhe baterem “dagli uno schiaffo forte!“. Pois as reações são inéditas e as expressões ímpares e tão veementes! As crianças demonstram uma grande relutância em desferir qualquer gesto malicioso para com Martina, é simplesmente maravilhoso o olhar espectral e de relutância que eles nos demonstram. Deliciam-nos com frases como “É uma rapariga não o posso fazer!”, “Porque não a posso magoar!”, “Porque sou contra a violência” ou “Porque sou um Homem!”. São três minutos de ternura pueril, que nos faz pensar na degradação exangue de valores.
A violência doméstica explícita ou velada, tem ganho contornos varonis e tem subido com passos vigorosos e sem pruridos ao palco internacional completamente nua e despojada de preconceitos. É um fenómeno cada vez mais descortinado nas nossas sociedades. Obviamente que a violência doméstica não atinge só mulheres, atinge também homens, crianças, pessoas idosas, deficientes e dependentes.
Só em Portugal, a mais recente contabilidade apresenta-nos o número de 42 mulheres mortas no último ano. Nos últimos dez anos,  verifica-se a morte de 398 mulheres vítimas de violência doméstica. Para além das 42 vitimas mortais, a UMAR sinalizou ainda 46 tentativas de homicídio contra mulheres perpetradas por ex-companheiros e familiares próximos. Contudo, embora estes números representem uma barbárie, parafraseando Maria Macedo, diretora técnica da Associação de Mulheres Contra a Violência (AMCV) “Uma mulher morta que seja é sempre um número altíssimo”.
A violência doméstica é transversal à cor, raça, religião, ou classe social, é universal, perversa e sórdida. Não é de todo um tema bonito ou agradável, muito pelo contrário é triste, feia e vergonhosa, destarte não pode ser silenciada por etiquetas sociais ou sentimentos votivos. Existem valores e princípios  sumptuosos, intumescidos de amor e bondade. Este vídeo deixou-me feliz, esperançosa e muito comovida com os princípios destas crianças. Faz-me acreditar que todas as historias de amor, independentemente do género, não tenham apenas um prefácio apaixonado, mas, que tenham também vertido nas últimas páginas palavras de respeito, companheirismo e de amor, na sua aceção mais bonita e humana!

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015


2014 em Câmara ardente


O final do ano aproxima-se, encerram-se novos capítulos, alimentam-se esperanças, traçam-se novos planos, enfeitam-se expectativas. É como se estivéssemos a decorar varonilmente uma árvore de natal cheia de desejos brilhantes e promissores, tudo equilibrado sobre uma fé veemente, uma vontade sequiosa e obstinada, onde Murphy é um otimista! De chofre faz-se uma sinopse do peso do ano que carregamos sobre a nossa coluna vertebral, podendo esta oscilar sobre vários vértices e vontades. Pensamos no que correu bem no que correu mal, o que ficou por fazer, por dizer, as nossas falhas, enfim, damos por nós perante uma panóplia infindável de frases inacabadas, sem a correta pontuação e ênfase final, o normal, ninguém tem vidas perfeitas, nem mesmo aqueles que apregoam tal quimera.
Ora bem, nesta fase, toda a nossa fé resvala para 2015. No próximo ano é que vai ser, vou ser aquilo que não fui, não vou ser tão egoísta, vou ao ginásio, vou separar sempre o lixo (sem desculpas), fazer dieta depois do natal e o ano todo, vou ler 2 livros por mês, ver 3 filmes por semana e, outras coisas mais, guardadas pelas portas envergonhadas e lacónicas da vontade e do livre arbítrio. Tudo isto se encaixa em doze meses. A esperança tem doze meses, quatro estações e momentos que ultrapassam a permeabilidade destas barreiras por nós impostas.Mas afinal quem é cortou a vida  em meros pedaços de anos cada um com doze meses? Em doze meses conseguimos compartimentar e recalcar sentimentos, memórias, o amor, a dor e, acima de tudo quantificar e precisar. No ano de 2014 conseguimos precisar, infelizmente, a morte do grande Eusébio, os jogos olímpicos de Inverno na Rússia, o processo de anexação da Crimeia pela Rússia, o sequestro das 200 meninas na Nigéria, a Liga dos Campeões em Lisboa, o mundial no Brasil, os acesos conflitos na faixa de Gaza, a crise do BES, a atribuição à querida Malala Yousafzai do prémio nobel da paz, e, para finalizar, a prisão do engenheiro José Sócrates ( cumpri uma ordem cronológica!).
O tempo encontra-se assim segmentado, comprimido, e quando chegamos a Dezembro, a nível gráfico na nossa cabeça, fixamos o olhar no fim do calendário, não há mais meses e temos de erguer verticalmente a cabeça procurando um novo começo. Neste gesto está imprimido um  reset, uma amnésia rápida, convalescente e frenética para um mês que brilha com um placar luminoso, Janeiro. É tão bom poder dizer “o ano passado”, parece que já está bem longe de nós, está despegado, temos menos culpa, tão longe que tal acontecimento se encontra envolto num nevoeiro tão compacto que quase não se consegue perceber ou decifrar nada, e no entanto, tendo em conta os doze meses, poderá ter sido o mês passado, mas não interessa, foi o ano passado.
Por fim, mais um ano se aproxima, mais uma oportunidade de sermos melhores, de fazermos as coisas bem, de sermos bons uns para os outros e, de fazermos valer tudo a pena. Damos corda a nós próprios, insuflamo-nos durante a subida, enchemos os níveis de esperança e expectativa e içamo-nos através da inércia magnética para 2015. Esperemos que na descida no calendário até 2016 o melhor de 2014 seja o pior de 2015.
Um bom ano para todos!

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015




“É solitário morrer em África!”

O ano de 2015 não começou da melhor forma, acho que todos os desejos e votos por nós vociferados para o mundo no crepúsculo de 2015 não foram suficientemente fortes para evitar os últimos trágicos acontecimentos que têm marcado de forma exangue a atualidade...
O atentado em Paris foi obsceno, um ato bárbaro perpetuado por pessoas envoltas em ideologias que não consigo perceber, mas, o que aconteceu na Nigéria com todos os requintes de malvadez a adornarem os atentados e as mortes ultrapassaram o abismo vilipendioso da maldade! “Os explosivos estavam colados à volta do corpo da menina que parecia não ter mais de dez anos”, disse a Reuters a uma fonte policial. Não consigo visualizar sequer que tal ato torpe e infame seja perpetuado no corpo imaculado e cândido de uma menina de 10 anos! Pelo menos 20 pessoas morreram no “Monday Market” na cidade de Maiduguri. Vive-se um clima de horror e terror latente na Nigéria, os radicais islâmicos estão a atacar as zonas em redor, perscrutando sequiosamente locais que emanem vida com uma vontade sanguinária desmedida. Algumas fontes relatam que os números já ascendem a 2000 mil mortos, sim, são mesmo três zeros, não há erro numérico....
Não quero resvalar para o cliché que mais tenho lido nestes dias, contudo é verdade, e após o desenrolar deste cenário depravado, não existiu nenhum momento mágico de união mundial onde os chefes de Estado entrelaçam os braços e caminhem com passos peremptórios e categóricos por uma capital do mundo rezando, defendendo ou honrando as pessoas que morreram inocentemente  na Nigéria!
O Arcebispo da cidade de Jos, Ignatius Kaigama, pediu encarecidamente que a mesma atenção fosse dada as militantes que atuam com cada vez mais violência no nordeste do país africano. É urgente a necessidade de ajuda neste país! Em entrevista ao programa Newsday, da BBC, o arcebispo disse que o massacre em Baga é a prova de que o Exército do país não consegue conter Boko Haram e os seus séquitos. Porque é que o espírito não se multiplica? Porque não nos organizamos em prol da vida de pessoas iguais aquelas que morreram em Paris? O que é que muda? É a cor da pele? É a nacionalidade? É por não terem a Torre Eiffel ou o  Louvre? Somos diferentes em que afinal? Tem menos valor a vida de um nigeriano?
Estou dolentemente revoltada com tudo isto, e a situação Je suis Charlie veio aguçar de forma estoica ainda mais a minha liberdade de expressão, já que é um direito que a todos assiste, tal como o direito à vida, direito que tem sido plissado!
Este cruzar de braços mundial está a causar-me arrepios de insurreição, apetece-me  fazer-lhes cócegas com caracter de admoestação a esses braços amorfos e misantropos e ciciar-lhes " Estão a ser hipócritas!". Apesar de ter muita fé no mundo em que vivemos e achar que esta repleto de pessoas boas com uma enorme capacidade de amar e de ajudar o próximo, por vezes vejo que esses nobres princípios jogam às escondidas com o poder num exercício de sombras ardiloso, egoísta e ganancioso.
Valendo-me de John Done, será que não percebemos que a morte de cada Homem diminui-nos? Porque Nós fazemos parte da Humanidade, daí nunca devermos perguntar por quem dobram os sinos, porque  é por Nós!
Tenho mesmo de concordar com o editor do jornal “The Namibian”, Wonder Guchu “É solitário morrer em África!".



terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Addio, Anita Ekberg, eterna musa di Fellini!

Anita Ekberg, musa inspiradora de Fellini, e de qualquer romântico, ficará para sempre eternizada nas nossas melhores memórias com a sua entrada inefável na fonte de Trevi , pronunciando de forma epítome três lascivas palavras  “Marcello come here!” no filme La dolce vita.

 Uma verdadeira diva, portadora de uma beleza de uma jovem deusa, palavras de Fellini, protagonizou o momento mais emblemático do filme com uma personagem bastante sensual e ousada no seu tempo, mas de certa forma pura, inocente  e livre. Sylvia Rank,  com a cinestesia dos seus gestos quando entra para a fonte e acaricia a água consegue fazer com que qualquer um de nós escorregue deleitosamente para aquele momento, fazendo-nos sentir absorvidos por ela, vestindo-nos a pele a temperatura e o amor o coração. Que dicotomia de ousadia e amor, qualquer coração devoluto varre sentimentos bolorentos!
Envoltos neste misticismo de La dolce vita, um filme franco italiano de 1960, indubitavelmente uma das obras mais inspiradoras da sétima arte, onde existe uma transição do neorrealismo para o simbolismo, é um dos filmes mais importantes da década de 1960 e do século XX. Notória a marca  de mudança  na forma de narrar opta pela construção em episódios em detrimento de seguir a linearidade objetiva de uma história.
Um filme  de um romantismo inexaurível, que só os a preto e branco são detentores, com  sequências noturnas enaltece laços fortes com o cinema noir e com o expressionismo alemão. Somos assim convidados a entrar num cenário festivo, com mágicos contrastes de luz e sombra, grandes sobrancelhas femininas onde nos é apresentado o verdadeiro âmago cavernoso da sociedade burguesa italiana através dos olhos do personagem Marcello Rubini (o fascinante Marcello Mastroianni) uma Roma moderna e requintada que apenas é purificada pela alma das personagens. Bastante longe do classicismo moralista e sempre colocando a tónica na religião, o cinema italiano impressiona pela ousadia, coragem  poucos freios.
La dolce vita marcou uma época, contudo Anita Ekberg marcou todos os nossos corações deixando-os frémitos com os seus olhos clementes, exuberância e alegria, estabelecendo e implementando um padrão de beleza incomparável.

A presto Diva!

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

A falta Savoir Faire de Timor-Leste....



Afinal não foi assim há muito tempo, no entanto a falta de memória continua a afetar uma grande percentagem de pessoas.... Se remontarmos a 1999 todos nós nos recordamos da crise vivida em Timor-Leste quando as forças de oposição à independência deste país atacaram civis e criaram uma situação de violência generalizada, principalmente na capital, Díli. Imagens horrendas entraram nas nossas casas de forma galopante assolando-nos a alma .Todos nós ficamos prostrados e comovidos apelando a uma grande onda de solidariedade nacional.
Assistimos expectantes ao renascer de uma nação. Os pilares fundamentais que caracterizam um povo sempre estiveram inscritos nos mesmos, contudo, se colocarmos o holofote direcionado para o campo de direitos e democracia nas verdadeiras aceções das palavras, percebemos que, presenciamos um momento histórico, o erguer de uma nação!
É com alguma tristeza que observo as decisões do
governo timorense relativamente à expulsão dos magistrados estrangeiros, mais concretamente dos portugueses. O sistema judicial timorense é imberbe e tem contado com o apoio incondicional de profissionais portugueses na resolução e criação de infraestruturas e soluções. Em 2000, com o país em convalescença politica, as Nações Unidas desenvolveram um trabalho extraordinário distribuindo panfletos de helicóptero  solicitando em tetum e bahasa a presença de pessoas que tivessem estudado Direito ou que tivessem trabalhado em tribunais.Posteriormente foram surgindo nacionais que começaram a dar forma e a preencher um aparelho judicial. Começou-se a trilhar um caminho marcado por passos vigorosos imbuídos de esperança.
Depois de avivada a memória, é com inquietação e tristeza que constato que toda uma história marcada pela grande cooperação entre estes dois países, Portugal e Timor-Leste, ficou reduzida a notícias tendenciosas atinentes à expulsão dos funcionários judiciais portugueses. A falta de savoir faire no tratamento desta questão, perante o mundo inteiro não foi exemplar. A polémica assumiu contornos nacionais acabando por envolver toda a comunidade portuguesa, gerando polémica e despoletando revolta. Para além de estarmos perante um verdadeiro atentado aos valores básicos do Estado de direito, uma grosseira violação da independência do poder judicial, existe também um grande desrespeito para com a comunidade portuguesa que sempre apoiou este país.
Lamento que todos os esforços reunidos ao longo destes anos resvalem de uma maneira tão vertiginosa para um mar de interesses económicos, um mar com cheiro a petróleo, com ondas revoltas de corrupção e peixes gordos onde as redes de pesca têm uma malha larga!

A afiada espada de Dâmocles continua afiada e suspensa sobre muitas cabeças...

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Efemeridades do bronze!!

Ah que maravilha! Chega Agosto e ruma tudo a Sul! Preparam-se as malas varonilmente com os melhores vestidos, uma panóplia infindável de sapatos, bikinis e mais triquinis. Discute-se com os amigos à porta de casa porque “alguém” tem malas a mais e a gestão do espaço no carro está difícil. Esboçam-se sorrisos com puerícia e as portas do carro fecham-se. O quadro típico de Agosto.

É a época mais esperada em todo o ano. Fazem-se poupanças nos meses anteriores para “sobrar mais algum” para os sunsets e jantares. O ritmo do desporto também aumentou exponencialmente, há que estar em forma para pisar a popular e concorrida areia do Sul. Um sol abrasador, miúdas giras de bikini passeiam na praia, rapazes apóstolos acérrimos do novo conceito spornstar palmilham a costa apreciando as mais recentes novidades do mercado, as hormonas frenéticas sobrevoam o areal, tudo isto tem uma hermenêutica: bem-vindos ao All Garve! Ir para a praia já não se coaduna com aquele conceito idílico de paz e harmonia onde se sente a simbiose com o mar e se exorcizam as agruras que nos molestam a alma, não, nada disso. Quem quiser fazer esse exercício corte à direita na auto-estrada para a Costa Vicentina. No All Garve ir para a praia implica toda uma dinâmica complexa entrelaçada com uma indumentária “in”. Acabaram-se os chapéus à pescador e os velhos trapinhos. O desfile é tão intenso e os olhares tão peremptórios na orla das vaidades que qualquer rapariga à beira mar se sente um pouco constrangida com o que a circunda. Múltiplos problemas surgem nesses momentos, ou é a depilação, ou a barriga ou a celulite, ou sei lá o quê. Contudo elas assumem uma postura vertical, passam os dedos pelo cabelo, encolhem a barriga e olham no horizonte como se nada fosse, há que ter fé absoluta na chia, na linhaça, no chá verde e nos sumos detox! Os Homens que me perdoem mas as mulheres são muito mais astutas na arte da subtileza, mesmo que queiramos não olhamos para trás (pelo menos nos segundos subsequentes).
Final de tarde, o ambiente menos cálido convida aos sunsets, vislumbra-se os tão apreciados mojitos, gin tónicos e caipirinhas, celebra-se a vida, o amor ou…o efémero Verão. Ambientes afrodisíacos, polvilhados com sorrisos tímidos presos em palhinhas e olhares ainda com sal. Talvez se tenha coragem para falar com a rapariga que vimos à beira mar, pois já existe um maior catalisador.
Seguem-se os jantares com amigos, os passeios na red carpet de Vila Moura, a busca pelas pulseiras para entrar nas discotecas que estão em voga, as selfies que irradiam alegria e felicidade pigmentadas pelo bronze, o número de amigos no facebook aumenta e o mesmo enche-se de fotografias de transpiram bem-estar e jovialidade. Será que tudo isto é genuíno? Não estaremos a viver ambientes demasiadamente plásticos? Eu adoro o Algarve e todo o tempo que lá passo com os meus amigos, mas infelizmente os cenários que nos acariciam não são os mais epicuristas e a felicidade que se vive não me parece a mim que nasça do coração, pois é macilenta e temerária.
Aproxima-se languidamente o mês da ressaca, Setembro e as espectrais responsabilidades de mãos dadas com ele. Parece que nos sussurra ao ouvido “ pssstt acabou-se o bem bom, vá, começa a pensar naquilo que te espera.” Despedimo-nos do querido mês Agosto com um sentimento não amargo mas salgado, a nostalgia vai-se instalando. E é assim, vamos todos regressar para os nossos homónimos que nos esperam calmamente em casa, com as mesmas roupas e posturas, o heterónimo revoltou-se, fartou-se e foi de férias, mas regressa sempre, pois não vive sem ele!

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Alice no país das maravilhas

Uma porta fecha-se. Uma porta abre-se. Há uma chave no chão mas é muito pequena. Outra lá ao fundo mas muito grande. Alice no país das maravilhas. Tenho a chave certa mas sou muito grande para a porta. Tomo um elixir mágico que me torna pequenina e abro a porta. Uma porta muito grande mal consigo avistar a fechadura. Tomo um elixir mágico e abro outra porta. Onde estou? Quem sou?
“Alice, Alice por aqui” – ouço eu do fundo de uma floresta.
Desço um escorrega de mil cores. Caio em cima de um cogumelo que me “trampoliza” para um labirinto infinito de trilhos e caminhos que se abraçam. Tocam à porta, espreito pela fechadura, é o carteiro. Oh o carteiro !No reino não há cartas só há sonhos endereçados sem selo e envelope. Continuo a correr em cima de flores que falam e sorriem, faço-lhes cócegas com os dedos. Avisto um gato gordo e filosófico às riscas roxas e cor de laranja. Fumava e falava comigo por sinais de fumo. Que tontinho que ele é.
- Gato carnaval, qual o caminho para sair daqui? – pergunto eu com a mão na anca.
- Depende, onde é que tu queres chegar? – exclamava ele com ar de dandy.
- Não importa muito o sítio… - digo eu desabafando.
-Então qualquer caminho serve ! – sibilava o gato gordo.
Tudo louco nesta realidade. É a lagarta com perguntas existenciais, o coelho que não me larga sempre a lembrar-me que estou atrasada, que mundo diferente, que mundo delicioso. Troquei os pontos cardeais. Brinco às escondidas com a minha sombra. O meu coração é bucólico. A minha alma miscível com a das árvores. Tudo tem cheiro e textura. Aqui vivo a apoteose da infância. Vive-se epítomes em segundos. Aqui não existe a teleologia. Baralho o relógio e caminho ao contrário, tudo é como eu imagino.

De repente ficou escuro, alguém tinha desligado o interruptor da luz. Um homem abre uma porta. Não percebo logo quem é. Espero mais um pouco e quando ele se aproxima com aqueles ponteiros a abanar vejo que é o Sr.º Relógio. Está na hora de acordar e de fechar todas estas portas. Agora é hora de aconchegar o sonho na cama. Está na hora de ele abrir portas e sonhar. Vamo-nos revezando para o manter sempre com a porta aberta.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Um Herói, um Homem Justo, um Homem bom!



Hoje é um dia muito importante. Faz hoje precisamente 60 anos que um herói nacional morreu. Um herói pouco conhecido e reconhecido infelizmente…Ele é só a honra da nossa pátria e, nas palavras da escritora Gisèle Allotini “se os Portugueses se parecem com Ele, são um povo de cavalheiros e de heróis”.
Esse herói nasceu em 1885 em Cabanas de Viriato, era um Homem infinitamente bom, um Homem justo! Um exemplo ímpar da verdadeira grandeza de espírito. Um Homem que salvou milhares de pessoas durante o holocausto! Pugnou até ao fim dos seus dias pelos seus princípios, agarrado à máxima “Se há que desobedecer, prefiro que seja a uma ordem dos homens do que a uma ordem de Deus”. Defendia que a “hospitalidade não tem cor nem é guiada por qualquer sentimento que não seja a virtude humana de solidariedade perante a desgraça desarmada, a desgraça inocente ou o apelo desinteressado”.
Fez tudo isto contra as ordens funestas superiores e foi repreendido por isso. Expulso da carreira diplomática, afastado dos seus 15 filhos dispersos pelo mundo, foi empurrado por dedos duros e impiedosos, directivas do governo de Salazar, para a rua da miséria tendo de queimar as portas de sua casa para se manter quente. Fazia parte da fila da sopa dos pobres, morreu na pobreza em Lisboa no Hospital da Ordem Terceira e foi enterrado com as indumentárias da Ordem dos Frades Menores, tal era a sua miséria extrema.
Quem era esse Homem que teve uma vida tão injusta? Como pode um Homem tão bom ter tido um final tão frio e desconsolado? É este o preço de uma consciência virtuosa?
Entristece-me a alma pensar em como a vida e as circunstâncias podem ser tão lancinantes. Apetece-me gritar tão alto e tão veementemente até que a minha voz recue a 1939, para penetrar aquela atmosfera mórbida e dizer-Lhe que é uma pessoa inebriante. Apetece-me abanar a sociedade daquela época, o poder modorrento e inexorável e dizer-lhes nos olhos de uma forma tão profunda até lhes varar a alma que, Ele foi um dos Portugueses mais importantes que nós tivemos…
Seis décadas se sucederam desde a sua morte. A sua casa continua a lutar contra as intempéries. Vai desabando lentamente, engolindo-se paulatinamente. Cansada e desgastada pelo último inverno rigoroso vai-se vergando à inércia humana. Continua fechada, inerme e sombria a casa da família de um Homem que foi o albor de muitas vidas, que lutou contra o ambiente infausto da 2.ºGuerra Mundial, que abnegou a morte e o anti-semitismo, que possibilitou a perpetuação de famílias, multiplicação de sonhos e que protegeu o amor…
Esse Homem chama-se Aristides de Sousa Mendes, era o exemplo máximo da bondade e da coragem que trilhou o caminho para a liberdade e igualdade.
“Religião? Pouco importa, assina-se!
Origem “étnica”? Não tem importância, assina-se!
Judeu, Católico, protestante? É tudo o mesmo, assina-se!
Russo? Assina-se!
Apátrida? Assina-se
Vou salvá-los a todos” 
Era a sua promessa….
No meio do desespero da pobreza, prostrado ao opróbrio, Aristides de Sousa Mendes chegou a escrever uma carta ao Papa, à qual nunca teve resposta: "Há muito que espero que uma palavra de Vossa Eminência possa consolar o meu coração inquieto, mas essa palavra ainda não chegou (…) Há muito que perdi a confiança na justiça terrena, não, porém, na justiça divina. Se andei mal em salvar os judeus das garras do Anticristo, faça-me Vossa Eminência a caridade de mo dizer para que eu possa proclamar aos meus filhos o bem e a justiça da minha conduta para que eles possam orgulhar-se de seu pai.”


Sobem-me as lágrimas aos olhos comovidos perante tal soberbo exemplo de bondade e de grandeza. Hoje é dia de uma vénia mundial a Aristides de Sousa Mendes. Que a sua história se perpetue nos ecos do vento intemporal, nos inspire e que se aloje de forma permanente nos nossos corações para nos podermos tornar pessoas melhores, porque “quem salva uma vida, salva o mundo inteiro”, Aristides de Sousa Mendes salvou um mundo Inteiro!


terça-feira, 1 de abril de 2014

E se ninguém conseguisse mentir?

E se ninguém conseguisse mentir? E se todos nós fossemos obrigados à transparência da verdade? O que seria das nossas vidas e das nossas consciências? Até que ponto uma consciência tranquila é uma consciência verdadeira? Será que podemos ser assim tão maniqueístas?
Eu, penso que não. Não podemos viver sempre em duas cores tão fechadas que se encerram sobre si próprias. Não sou apologista da mentira eterna mas, também não sou apóstola de uma verdade prostradora. A verdade talvez seja perfeita para ciências exactas, mas não para a vida. Como se pode aplicar um conceito tão matemático e recto a uma vida tão literária com tantas curvas? Uma vida recheada de beleza, esperança e fé não se pode coadunar com a nudez de uma verdade certa, sem vírgulas, sem casas decimais. A verdade é um véu com cores infinitas, sombras intermináveis e reflexos isotéricos. A verdade deslinda-se e caminha sozinha, sonha e multiplica-se. A ambiguidade do núcleo da verdade vai do mar ao céu.
O celeuma desta questão é que o mundo inteiro sabe e acredita que um mais um são dois ou que dez menos cinco são cinco. Mas quando se fala em verdades que não têm forma e que não são palpáveis a verdade já não é assim tão verosímil. Quando se fala nos feitos de Aristides de Sousa Mendes, Nelson Mandela ou de Dalai Lama, há sempre alguém que diga que aquilo pelo qual pugnaram “não era bem verdade”. Esta obstinação pela certeza redonda e compacta desassossega-me. Toda a gente corre atrás da verdade, mas quando se desembrulha tropeçam nas buracos das dúvidas, inclinam-se de forma virtiginosa no abismo da incerteza e, ou dão um passo de fé ou um tiro no pé. Mas que verdade é essa tão tirana e ubiquista que trilha o seu caminho pelas cordilheiras vilipendiosas dos espaços da verdade? Onde começa uma meia verdade ou uma meia mentira?
A verdade está na nossa inteligência emocional, nos ouvidos do nosso coração, é acariciada pelos neurónios da sensibilidade. Mentiras? São verdades escondidas com parte da cauda de fora!




Regresso a casa


Regressar a casa e aterrar em Portugal depois de umas longas e intermináveis horas foi literalmente uma missão. Senti que a minha alma era dotada de uma elasticidade incrível, os pés em Portugal e cabeça ainda em Timor-Leste.

Chegar a casa é bom!A última recordação que tenho da porta de minha casa era das lágrimas dos meus pais e irmãos antes de partir e da agitação inconsciente dos meus cães, sabiam que algo se estava a passar mas não percebiam muito bem o quê...Timor-Leste felizmente para eles não fazia parte do léxico canino. Quando entrei no meu quarto a primeira recordação que me assolou foi a histeria da mala e dos espectrais 20 kg que ali se tinham vertido há 6 meses atrás:
-"Achas que isto tem mais de 20 kg?" - dizia eu aflita.
- "Não achas!Nem chega aos 15 kg!" - explicavam os meus irmãos. 
Enquanto isso já eu estava a pensar na cara da senhora do aeroporto que me poderia dizer hipoteticamente que teria de pagar excesso de bagagem, mas não, daquela vez passou!
Estava todo arrumadinho e diferente. A minha mãe comprou-me uma colcha nova cor-de-rosa com o meu tais colorido colocado no fundo da cama, afinal o quarto não estava igual!
Regressar é sempre um sentimento muito singular, vimos sôfregos de saudades e a transbordar novidades que se atropelam antes de lhe darmos vida, temos uma vontade infinita de mostrar aos outros aquilo que vivemos mas, não é assim tão fácil como parece. É como se o nosso cérebro estivesse em cima de um trampolim que não lhe dá descanso, e ele está ali a saltar, de um lado para o outro nas molas das perguntas sonoras das pessoas que o estimulam constantemente...e às vezes ele adormece, mas continua a saltar em constante efervescência... É engraçado as abordagens que são feitas"Já voltaste? E aquilo é giro? É muita pobreza não é? Ai agora aqui é que estás bem não é? Já não voltas mais pois nao? Tão longe..já acabou o martírio, aqui é que tu estás bem!".


Instaura-se um silêncio perturbador na minha cabeça.. é como se congelasse e começasse a reparar em cada expressão facial das pessoas fitando-as com um olhar complacente e ao mesmo tempo esboçando um sorriso lento e amarelo e quando reparo que as palavras terminaram a resposta mais comum e mais prática que me salta dos lábios é "Pois!". 
O que posso eu dizer? Que não vou voltar?Que não vou sair de Portugal seja para onde for? Que não gostei? Estaria a mentir.. e a verdade é que menti e minto...é mais confortável assim para todos. Um simples sorriso com dois significados e todos ficam contentes! 
Sento-me num café, as perguntas curiosas despontam naturalmente e aí a minha saudade ganha forma e começo a derreter-me em histórias. É bom ver no olhar das pessoas a surpresa e o espanto de coisas que existem e estão tão longe de nós e, é melhor ainda sermos nós o veículo de informação, explicarmos e descrevermos os cenários, pessoas, culturas, é como estar a pintar um quadro. Um quadro bonito e vivo, um quadro com cheiro e sabor que se vai aproximando e envolvendo cada vez mais as pessoas, e esse sentimento fugaz é único, vimos e temos consciência que criámos algo, algo que fica e que as pessoas guardam, algo com valor, é um privilégio fazê-lo! O cenário é bastante mórbido quando o desfecho é diferente, quando estamos a contar algo a alguém e essa pessoa nos diz "Ahhh, está bem, que bom! Olha sabias que o café do não sei quantas fechou? Eu sempre disse que aquilo não ia durar muito tempo!". Nestes momentos parece que levámos uma injecção de dormência, paramos e pensamos que nós estamos diferentes, já não somos os mesmos, algo mudou, muito antes de nos termos apercebido desta mutação espiritual. Regressar é bom, mas até que ponto? É bom recarregarmos baterias, recebermos os mimos calóricos dos pais e irmãos, ir aos super mercados e pensar que vai ter tudo aquilo que nós queremos comprar porque o jumbo ou o pingo doce não estão à espera que chegue o ferry boat com leite, natas ou coca-cola da indonésia. É muito bom, mas até que ponto? Qual é o prazo de validade deste sentimento? Não sei... já tentei procurar mas a validade não aparece, acho que vou ter de ser eu a estipular. O problema é que não basta alimentar o físico, é necessário alimentar a alma, e essa é uma verdadeira tirana, faz do nós o que quer, molesta-nos sem darmos conta, repreende-nos.. e o corpo lá se vai vergando e regrando pelos seus vícios e admoestando-se pelos seus caprichos. E vive-se assim, meros peões das vontades vis da alma. Não se pode fazer nada, a solução é caminhar e percorrer de mãos dadas com ela os caminhos sinuosos da vida e aprender em conjunto, pode ser que um dia se encontrem e vivam uma história de amor.
Nada é igual ao que era ontem, cada vez acredito mais que nascemos sozinhos, vivemos sozinhos e morremos sozinhos, e tal como dizia Orson Welles, "somente através do amor e das amizades é que podemos criar a ilusão, durante um momento, de que, não estamos sozinhos".


Malai na ilha do Crocodilo - Luz


Tudo passa (não é o que dizem?).
A primeira impressão é sempre dúbia e algo relutante, contudo, acaba por se tornar amenizada, híbrida e posteriormente doce. Afinal, Timor-Leste é bonito!
Após ter vivido 5 meses na ilha do lafaek, os sentimentos convertem-se. Viver em Timor é embarcar numa aventura, uma aventura onde se desconhece o ponto de chegada ou as paragens intercalares, uma aventura destemida. É uma ilha com uma história e cultura escrita a sangue, a qual ainda é bem presente nos semblantes dos locais, tudo passa, mas a dor e a mágoa persistem sempre.
Quando se viaja e transferimos o nosso pesado invólucro, que se arrasta pelo chão dos vícios, mimos e hábitos traiçoeiros é necessário criar uma distância deste, sussurrar-lhe calmamente ao ouvido e ir despindo-o devagar, como se fosse uma criança que fazer a birra. Assim ele vai cedendo, esmorecendo, as curvas plissadas dissipam-se perdendo cor e ficando mais moles. Aí é altura de o começar a moldar novamente e adaptá-lo, com calma e sensatez e educá-lo para algo que é novo e desconhecido e explicar-lhe que o que é novo não é necessariamente mau. Com tempo, as birras passam, a alma torna-se mais inócua e predisposta. Tempo de iniciar a caminhada com uma mente ávida de experiências!
Timor-Leste, o sítio onde tudo é inesperado e diferente. O sal assemelha-se a açúcar e o sal ao açúcar, quantas vezes me enganei a fazer o arroz, um arroz de tomate doce. Acaba por ser complicado decifrar certas atitudes e comportamentos, a adaptação não é automática, as coisas são desprovidas de sentido, ou então sou eu que não consigo perceber o verdadeiro âmago delas, sofre-se de miopia cultural. No início era algo que me causava algum formigueiro cerebral, mas tudo passa, e aos poucos e poucos foi passando…
No café:
“Boa tardi mana, coca-cola?” – Malai (estrangeiro)
“Sim, há!” – Mana (rapariga)
“Óptimo! Coca-cola ida se faz favor!” – Malai
“Sculpâ Senhora não há..”- Mana
“Não há? Acabou de me dizer que tinha!” – Malai
“Há mas não tem!” – Mana

Este é o cenário mais hilariante em Timor-Leste, e quem sabe está neste preciso momento a esboçar um sorriso envergonhado, pois sabem que é assim quase todos os dias, “Há mas não tem!”.
Aqui tudo se move com pés de chumbo, bem devagar devagarinho e com muita calma, os ponteiros do relógio arrastam-se e oscilam paulatinamente. Há tempo para tudo, um tempo bailarino e harmonioso sempre ao som das colunas das microletes românticas com nomes como “amo-te”, “Saudade”, “Cristiano Ronaldo”, dos apitos de saudação persistente dos táxis e das vozes inquietantes que nos assaltam com “ pulsa, pulsa, sim card?”. É Timor-Leste, não nos podemos sobrepor ao relógio local, uma coisa são os nossos tempos acelerados e conturbados, outra coisa é o tempo fleumático em Timor-Leste, tempo mole em cabeça dura, tanto acaricia que conquista! Portanto, temos aqui uma suave fricção, nada que não passe também, acabamos por nos vergar e perceber que temos de respeitar esse tempo, um tempo cansado pelo calor confortável que merece respeito!
Independentemente dos fusos horários que não são compatíveis com aqueles que o Google nos dá, percebi que os Timor é um lugar especial e que tem muito para nos oferecer, para além de ser das nações mais jovens do mundo, um país em plena adolescência, é muito bom saber que estou num sítio onde tudo se encontra num estágio extremamente vernacular e embrionário. Sei que daqui a uns anos, vou poder dizer como os meus avós “Na altura em que estive em Timor...” porque eu fiz parte, ou pelo menos tento na minha esfera pessoal mudar, ou tentar moldar, que é menos invasivo, determinados comportamentos para melhor. Não podemos entrar aqui em divergências ideológicas e culturais do que é melhor ou não para um povo. Penso que para decifrar este pequeno enigma, basta pensar que o melhor é algo que os vai ajudar futuramente, só pelo facto de poderem ter a oportunidade de terem a opção, depois se o fazem ou não, já não depende de mim nem de ninguém, mas tiveram opção de escolher, avaliar e interpretar. É de facto uma experiência única poder estar em Timor, a única coisa que nos torna ricos é viajar, que para tal também é necessário ter oportunidade e disponibilidade. É algo que ninguém nos pode locupletar, podem-nos tirar tudo na vida, penhorar sonhos, hipotecar sentimentos, mas, aquilo que vivemos e sentimos é nosso, e isso está guardado num cofre à prova de estereótipos e inveja. Já faz parte de nós, do nosso adn!
Obrigada Timor! Obrigada Timor por fazeres de mim uma pessoa melhor, por me reiterares a ideia de que estamos em constante mutação espiritual, por me ajudares a encontrar 10% de mim própria, por me ensinares que posso comer arroz e frango com uma colher, que posso viver com menos daquilo que eu pensava, que posso tomar banho de água fria e não me queixar, por me fazeres deixares de gostar de expresso e apreciar café timor, por me tornar uma pessoa mais benevolente, pela maravilhosa água de côco que me ofereces, pela companhia deambulante, por me fazeres crer que a vida é aquilo que nós queremos que seja e por todos os momentos e experiências boas que me ofereceste que fizeram crescer a minha inteligência emocional!
Se isto fosse quantificável teria de pagar um excesso de peso colossal, teria de me chatear no aeroporto e tentar “subornar” a hospedeira tão querida do aeroporto de Díli, o que me vale é que as máquinas do aeroporto, portadoras de uma tecnologia de ponta, ainda só detectam a quantidade e não a qualidade!


Uma Malai em Díli