terça-feira, 1 de abril de 2014

Dia 28 de Abril de 2012 Chegada a Díli, Timor-Leste


Aterrar em Díli, foi como ter aterrado em outro planeta!
Uma confusão tremenda, mal saí do avião senti logo na cara o ar quente e perfumando de Timor-Leste! 
O céu estava carregado, e mal saí do aeroporto caiu um verdadeiro dilúvio.
"Começar de novo" era a frase que me pairava na mente a cada km que era feito.
 Era tudo novo e tudo diferente, nada era igual ao que eu já tinha visto, nem tão pouco se assemelhava a Africa,Vietname ou à Indonésia, era Timor Leste!
Senti que estava completamente anestesiada, não falava, só ouvia e parecia tudo tão estranho, quanto mais ouvia as pessoas a falar, com um discurso seguro, confiante e com um sorriso no semblante mais pequena eu ficava.
Tentava colmatar estes sentimentos que literalmente me assolavam os pensamentos sem sequer pedir permissão com panaceias instantâneas, "tudo tem um motivo de ser", aquela frase de âmago gigantesco e profundo que exala água oxigenada para as feridas momentâneas da alma e as desinfecta e mitiga. É confortável pensar assim, pelo menos temos um norte que subjaz a tudo o que fazemos, mesmo que seja um disparate. Os meus sentimentos chatearam-se e decidiram dividir-se 70% nadava em completa amorfidade e os restantes drogados 30% estavam em completa letargia, os quais foram vencidos rapidamente pelo jetlag.
De vez em quando lembrava-me, estou em Timor, essa informação ainda não tinha sido muito bem processada pelo meu cérebro, mas a minha sombra de 22 kg em forma de mala que me perseguia para todo o lado ajudava-me a lembrar disso a cada instante. Só me lembrava da alegoria da caverna de Platão, mas é uma alegoria mais personalizada a minha e com contornos diferentes em que eu inverto o objectivo da alegoria, neste caso as amarras a velhas crenças e pensamentos até se avistavam bastante cómodas e suaves, não as queria libertar, eram o meu invólucro que me protegia e abrigava e que já tinha a forma do meu corpo. Estava claramente em processo de negação!
Quando estava na cama, depois de um dia que mais pareciam 5, lembrei-me de uma oração que me embalou e ajudou a adormecer " Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. é o tempo da travessia, e se não ousarmos fazê-la, teremos ficado sempre à margem de nós mesmos".

Ámen

Emigrante


A minha vida há 4 meses atrás era uma autêntica ataraxia. Todos os dias tinham o mesmo sabor, os mesmos sentimentos, os mesmos pensamentos...como comida que não se gosta e que se mastiga eternamente para dissuadir o sabor e a mente.
Acordar e pensar "não me quero levantar e ir para um escritório gasto e carcomido por emoções de lassidão" só me apetecia virar para o lado e fingir que adormeci. Vencida e empurrada pela não resignação decidi declarar guerra à minha própria vida e colocar-lhe freio, há que colocar o nosso nome e a nossa hegemonia naquilo que é nosso, certo?
Todos os dias das 9h da manhã às 18h eu visitava sites e enviava o meu CV. Este processo foi um processo preguiçoso e que se movia lentamente, durou meses. Todos os dias recebia e-mails a agradecer a minha candidatura, mas que neste momento não estavam a recrutar, o típico, já adivinhava o conteúdo antes abrir os emails. Chegou um momento em que o quadro mudou de cores e algo de novo se avistava, lentamente, como se fosse um barco ao fundo do mar, que no início parecia uma simples canoa e que, conforme me aproximava mais, se transformava num verdadeiro Titanic, o Inov Contacto. Candidatei-me sem saber sequer para onde poderia ir, os destinos pareciam-me todos exóticos e a oportunidade “remunerada”.
O Titanic levou-me parar a Timor!



Família

Tudo começou obviamente com os comentários típicos da família:

- " Ai tão longe!! Não podes trocar? "- dizia a minha mãe intrigada.
- "Olha se quiseres não vais, não tens de ir, olha agora para Timor..." - assobiava o meu pai.
- "Gina tens de ter cuidado com as cobras de coral que atacam repentinamente, tens de a saber identificar e outra coisa muito importante, se por acaso houver um Tsunami, foge logo para as montanhas, não te ponhas a chamar toda a gente, não há tempo para isso, foge mas é!!! - diziam os gémeos com os olhos muito abertos.
 -"Timor? Que bom!! Isso é uma óptima notícia, parabéns" - dizia alegremente o Lino.
- "Timor? hmmm...não podia ser mais longe não é? claro que não tinhas de ir para o fim do mundo.. ainda por cima não tem neve, oh devias era ter ido para o Chile, aí sim eu podia fazer umas boas férias, agora Timor..." - lamentava-se o Carlos.

 Um prólogo fantástico que antecede o virar de uma grande página, que mais parecem 100.




Os ponteiros do amor


Uma tarde solarenga de Primavera num banco de jardim! Que brisa deliciosa que me beija as bochechas. Fecho os olhos e deixo-me escorregar pelos sonhos deleitosos da estação. Que cheirinho a perfume das flores que espreitam dos canteiros envergonhados. A temperatura veste-nos a pele e a paixão o coração. Penso em ti. Há tempos vi-te da janela a passear no jardim, inspiravas alegria a cada passo e expiravas inspiração. Debruçava-me no parapeito da janela só para te ver mais perto, porque no amor estes poucos centímetros contam.
O relógio já deu 15h e tu não apareces. Não quero acreditar que foste roubar inspiração a outro jardim ou a outro coração, pensar nisso esmorece-me e encontro-me numa manhã de inverno.
Avisto um homem ao longe. É muito baixo para ser quem eu espero. Não podes ser tu.
De repente, o homem entra no jardim, mas o sol inexaurível brincava comigo e, impediu-me de lhe ver os olhos. O homem emanava desassossego e sabedoria nos passos. A curiosidade, esse catalisador feminino, encaminhou-me para ele numa dicotomia de desfaçatez e vergonha ao mesmo tempo. Algo me intrigava.
- Desculpe, o senhor por acaso não está à espera de alguém? – pergunto eu com avidez.
- Não, quem eu procurava já me abandonou há muito. Neste momento só erro pelos jardins para acalmar a saudade do meu coração que me corrói durante o dia. À noite saro as minhas feridas nas tabernas, pois os fantasmas noctívagos são mais obstinados. – respondeu-me aquela alma perdida.
- Que vida triste que o senhor deve ter… - confidenciei-lhe eu.
- Triste? Triste é não amar e viver do amor dos outros! Eu amei com todo o meu coração. Amei tanto que continuo a amar. Existe maior plenitude que a transcendência de um amor? – disse-me o senhor com os olhos muito arregalados, tão arregalados que até consegui ver o meu âmago perplexo.
Ele sentiu na minha expressão a minha anuência tácita e seguiu caminho, acariciando a cada passo todas as flores que via. Ganhei naquele instante consciência de topo o meu corpo e de todos os meus músculos. Percebi que o meu coração devoluto não se importa de esperar por ti todas as horas intermináveis debruçado na varanda. Quero estar pertinho de ti, dar-te beijinhos com inspiração, o meu amor florido e viver uma primavera eterna contigo.





O encontro

O céu estava cinzento e a chuva continuava obstinada. As malas estavam feitas e a casa estéril. Tudo se movia com pés de chumbo, até os ponteiros dos segundos. A minha pressa era maior que a minha impaciência e, a minha impaciência menor que a inércia. Não sabia de deveria ir. Fiquei submersa nestes pensamentos pretorianos algumas horas. A ideia de partir perseguia-me de maneira intermitente.
Tomei uma decisão, a de ir sem pensar no amanhã de um ficar. Afinal nada me prendia neste país bolorento, tudo me aborrecia e entediava mas, o conforto da certeza era um sentimento almofadado que me aconchegava as incertezas. Vou. Escrevi um bilhete a despedir-me: “Querida casa vou partir! O facto de te conhecer tão bem deixa-me certa, e certezas com a minha idade não é o que quero ter no bolso. Adorei os momentos que partilhamos, vou guardar comigo todos os segredos confidenciados, desesperos e felicidades vividas. Desculpa a exiguidade literária mas estou com pressa. Um abraço do teu tamanho!”
Peguei nas malas, passaporte e vontade de viver e bati a porta.
O trajecto para o aeroporto foi longo mas suave, sentia que ia ficando mais leve a cada km que percorria. O encontro estava marcado para as 10h. O tempo era escasso, e a minha sofreguidão pelo cumprimento escrupuloso do compromisso era colossal. Cheguei 1 minuto depois da hora marcada. Fui presenteada com o peso ausência, a grande amante da solidão. Quando cheguei o chão ainda exalava sorrisos sarcásticos da minha pressa. Ele partiu e não cumpriu. De que vale a pressa?  Desprezei o tempo, não lhe dei a atenção de que era merecedor e ele não esperou por mim, nem um minuto. Gostava de poder mover o meridiano e ganhar mais uma hora, se bem que me bastava um minuto. Um minuto foi o tempo que eu precisei para mudar a minha vida. Peguei nesse minuto, embrulhei-o, dobrei-o em 12h, sem o vincar muito e embarquei. Um minuto. A fracção de tempo que eu precisei de perder para perceber todo o ecossistema esotérico e físico que me circundava. Não estou sozinha. Num bambúrrio entrego-me assim ao mundo apenas num minuto, espero uma eternidade inexaurível de horas de felicidade e anos infinitos de aprendizagem. Embarco a valorizar todos os minutos frémitos disfarçados dos relógios inclementes.


O contrato já estava assinado...

Mas o que é que importa? Está tudo bem, porque se arreliam tanto? Já não se sabe que é assim? Afinal onde reside a dúvida? Esquece lá isso! O país está recortado em pedaços irregulares, os nossos reptos oscilam nas ondas do vento e as nossas orações levadas nos bicos das gaivotas. Vejo telemóveis que nos acenam todos os dias nas ruas, por aquilo que percebo são iphones, não sei é o modelo mas as mãos são portadoras de classe numérica. Qual a melhor régua para medirmos o nível de riqueza oca? Ir ao teatro é caro! Muito bem estamos então no limiar dos 5/10 euros. E ir jantar no sábado à noite? Ou frequentar a orla de discotecas nocturnas? Isso já é muito acessível e culturalmente estimulante!
Que belo paradigma de antíteses que vivemos nos dias que nos cumprimentam. Os meus olhos ficam confusos com a ambiguidade dos tempos e com o eufemismo dos sentimentos que nos assolam.
Os sem abrigo que mendigam nas calçadas e portas de igrejas, já fazem parte dos mosaicos de contradições da calçada portuguesa, são moradores residentes numa cidade onde os semblantes sorridentes são sempre os dos turistas. Emprego é uma quimera e educação uma mentira. Erram na rua olhares perdidos. O ar está saturado. O largo do Carmo grita de forma ensurdecedora. País de grandes feitos históricos, mar, mar e mar, escorregamos para lá e não sabemos nadar! Ficámos ludibriados com o “canto das sereias”, os capitães não se amarraram aos mastros, nem ordenaram aos marinheiros que tapassem os ouvidos.
Candidaturas recheadas de esperança caiem na caixa de entrada todos os dias, escorregam direitinhos para um item que aspira todos os emails “itens eliminados”. Telefonemas são esperados para entrevistas. Pensa-se na roupa que se poderá eventualmente usar. Pesquisa-se na internet “dicas” para o primeiro contacto com a empresa. Treina-se o discurso em frente ao espelho da casa de banho. Estuda-se a empresa. Decora-se a sua sinopse. Vestimos uma cara confiante e simpática. Adornamo-nos com segurança e profissionalismo. Revemos 100 vezes o curriculum e imprimimo-lo várias vezes. Os dias passam-se e as semanas seguem-se, brotam novidades. “Vamos estudar a sua candidatura, obrigada pelo seu interesse!”


Não há nada a fazer, o contrato já estava assinado com o amigo do director que tem doutoramento na escola secundária para o cargo….Saudades do futuro? Nunca senti tanto Pessoa!

O pensamento insolente

Tantas certezas suspensas no vácuo do vazio, tão poucas seguranças veementes e tantas dúvidas que naufragam a implorarem socorro curvadas nas cavernas da alma. Não existem certezas no nosso caminho a trilhar sob a forma de vida com olhos pernas e braços. Tudo muda, tudo abraça uma cinestesia ambulante. O tempo amolece a fúria, domestica a impetuosidade selvagem e coloca freios à expressão, mas não ao pensamento. O pensamento, ai o pensamento, um eterno selvagem, sem modos nem etiquetas come primeiro a sobremesa e acaba no prato principal, coloca os braços em cima da mesa e não limpa os lábios nem mesmo quando estes estão maculados com mentiras. Nada disso, com aquele ar vespertino arregaça as mangas e desafia-nos. Que mal-educado que é, sangue quente de adolescente e irreverência obstinada, lá está ele sentado com o seu ar fleumático. Passa o tempo por nós, de forma sublime por vezes exorciza-nos do nosso pensamento prevaricador e ensina-nos a viver em paz connosco e com os nossos fantasmas burgueses. Acaricia-nos a alma, dá-nos um beijo de boa noite, queremos cerrar as pálpebras, velar sobre o pensamento e descansar. Bate à porta a noite, é o sossego do desassossego. Não conseguimos silenciar esta voz interior que nos assola a cada momento, vem sem aviso prévio, molesta-nos o coração, verga-nos aos caprichos dela e manuseia-nos como uma marioneta. Pensamento, o nosso verdadeiro não o heterónimo mas sim o homónimo.
Podem florescer campos infinitos garridos de flores e amor, crianças brincando nas espumas das ondas, tudo isso é uma verdade indelével para os sentidos. Mas o pensamento, esse, está sempre à espreita. De olhar soslaio ele absorve-nos com a sua iridescência mágica e faz-nos tropeçar no mundo das mil possibilidades, um jogo de espelhos ardiloso, um labirinto que resvala para um afluente modorrento.
Podes entrar, hoje já não és estrangeiro, já não és estranho. Hoje, aceito-te, com a bandeira e a espada prostradas no chão. És parte de mim, o meu âmago, catalisador camuflado de todas as sensações, voz consciente virtuosa das premissas mais genuínas da vida, és a aprendizagem que vou agarrar mais tarde que agora procrastino e que, empurro devagarinho com o dedo para o sabor não ser amargo.


Panaceia: Adam Smith

Fugir não é sinal de cobardia. Durante toda a minha vida andei a fugir de tudo aquilo que que me molestava o coração. Para quê ficar e assistir às Divinas Comédias do passado? Cumprimentar demónios diariamente no elevador? Sonhar com pesadelos? Prefiro fugir e deitar-me sobre o olimpo da incerteza e entregar-me à beleza do desconhecido. Não gosto de remediar, de tentar sarar, de pisar as feridas, de ficar com sangue nos sapatos. Gosto de fugir, de "dar o sermão aos peixes" às feridas e deixá-las a alimentaram-se de oxigénio enquanto fecham sozinhas. Tudo isto se passa com um processo muito parecido à da mão invisível de Adam Smith, que regula e equilibra tudo. É essa a minha metodologia, até porque nunca percebi muito de mercados e economias tal como não entendo muito das oscilações da oferta e da procura do amor, então fujo e o Adam Smith trata de tudo.Era a frase que mais ouvia nas aulas de micro-economia na faculdade, ficou-me incrementado como uma panaceia. Não sou estóica, compadeço-me com o mal alheio, com os infortúnios e com a austeridade da vida. Prefiro dedicar-me ao epicurismo da alma e ao bucolismo dos sonhos. Como tudo nesta passagem no mundo dos homens é efémero, não vale apena mergulharmos num quarto escuro, sufocante e sem janela. Vou sair pela porta e vou fugir. Faço na mesma o funeral dos meus pensamentos guturais, são todos exorcizados e vão direitinhos para o purgatório mal atravesso a porta. As coisas não são assim tão simples, é todo um processo, nada vai de chofre. Eles vão ter que se confessar e se expurgar de todos os males que me causaram. Têm que ficar imaculados, purificados e esclarecidos acima de tudo, porque se não continuam a pingar cólera lá de cima. Mancham-me a vida e o meu percurso e eu, torno-me um bode expiatório. Não pode ser, cada um foge para diferentes pontos cardeais.

A minha alma é indómita e rugosa, não é permeável à minha vontade lacrimosa. Não deixo que a vida me soçobre. A vontade de viver está à frente de mim, somos dois heterónimos de um homónimo. A mesma diz-me que todos os sítios são impessoais e frios até o adornarmos com o nosso amor. Mas, se a cor faz vénia à palidez, o amor fica tão rasteiro que nem o vento dá por ele e, a luz se envergonha perante a solidão e fica morna, eu fujo, porque remediar um amor sem vida é assistir ao meu velório vestida de noiva.