quinta-feira, 31 de julho de 2014

Efemeridades do bronze!!

Ah que maravilha! Chega Agosto e ruma tudo a Sul! Preparam-se as malas varonilmente com os melhores vestidos, uma panóplia infindável de sapatos, bikinis e mais triquinis. Discute-se com os amigos à porta de casa porque “alguém” tem malas a mais e a gestão do espaço no carro está difícil. Esboçam-se sorrisos com puerícia e as portas do carro fecham-se. O quadro típico de Agosto.

É a época mais esperada em todo o ano. Fazem-se poupanças nos meses anteriores para “sobrar mais algum” para os sunsets e jantares. O ritmo do desporto também aumentou exponencialmente, há que estar em forma para pisar a popular e concorrida areia do Sul. Um sol abrasador, miúdas giras de bikini passeiam na praia, rapazes apóstolos acérrimos do novo conceito spornstar palmilham a costa apreciando as mais recentes novidades do mercado, as hormonas frenéticas sobrevoam o areal, tudo isto tem uma hermenêutica: bem-vindos ao All Garve! Ir para a praia já não se coaduna com aquele conceito idílico de paz e harmonia onde se sente a simbiose com o mar e se exorcizam as agruras que nos molestam a alma, não, nada disso. Quem quiser fazer esse exercício corte à direita na auto-estrada para a Costa Vicentina. No All Garve ir para a praia implica toda uma dinâmica complexa entrelaçada com uma indumentária “in”. Acabaram-se os chapéus à pescador e os velhos trapinhos. O desfile é tão intenso e os olhares tão peremptórios na orla das vaidades que qualquer rapariga à beira mar se sente um pouco constrangida com o que a circunda. Múltiplos problemas surgem nesses momentos, ou é a depilação, ou a barriga ou a celulite, ou sei lá o quê. Contudo elas assumem uma postura vertical, passam os dedos pelo cabelo, encolhem a barriga e olham no horizonte como se nada fosse, há que ter fé absoluta na chia, na linhaça, no chá verde e nos sumos detox! Os Homens que me perdoem mas as mulheres são muito mais astutas na arte da subtileza, mesmo que queiramos não olhamos para trás (pelo menos nos segundos subsequentes).
Final de tarde, o ambiente menos cálido convida aos sunsets, vislumbra-se os tão apreciados mojitos, gin tónicos e caipirinhas, celebra-se a vida, o amor ou…o efémero Verão. Ambientes afrodisíacos, polvilhados com sorrisos tímidos presos em palhinhas e olhares ainda com sal. Talvez se tenha coragem para falar com a rapariga que vimos à beira mar, pois já existe um maior catalisador.
Seguem-se os jantares com amigos, os passeios na red carpet de Vila Moura, a busca pelas pulseiras para entrar nas discotecas que estão em voga, as selfies que irradiam alegria e felicidade pigmentadas pelo bronze, o número de amigos no facebook aumenta e o mesmo enche-se de fotografias de transpiram bem-estar e jovialidade. Será que tudo isto é genuíno? Não estaremos a viver ambientes demasiadamente plásticos? Eu adoro o Algarve e todo o tempo que lá passo com os meus amigos, mas infelizmente os cenários que nos acariciam não são os mais epicuristas e a felicidade que se vive não me parece a mim que nasça do coração, pois é macilenta e temerária.
Aproxima-se languidamente o mês da ressaca, Setembro e as espectrais responsabilidades de mãos dadas com ele. Parece que nos sussurra ao ouvido “ pssstt acabou-se o bem bom, vá, começa a pensar naquilo que te espera.” Despedimo-nos do querido mês Agosto com um sentimento não amargo mas salgado, a nostalgia vai-se instalando. E é assim, vamos todos regressar para os nossos homónimos que nos esperam calmamente em casa, com as mesmas roupas e posturas, o heterónimo revoltou-se, fartou-se e foi de férias, mas regressa sempre, pois não vive sem ele!

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Alice no país das maravilhas

Uma porta fecha-se. Uma porta abre-se. Há uma chave no chão mas é muito pequena. Outra lá ao fundo mas muito grande. Alice no país das maravilhas. Tenho a chave certa mas sou muito grande para a porta. Tomo um elixir mágico que me torna pequenina e abro a porta. Uma porta muito grande mal consigo avistar a fechadura. Tomo um elixir mágico e abro outra porta. Onde estou? Quem sou?
“Alice, Alice por aqui” – ouço eu do fundo de uma floresta.
Desço um escorrega de mil cores. Caio em cima de um cogumelo que me “trampoliza” para um labirinto infinito de trilhos e caminhos que se abraçam. Tocam à porta, espreito pela fechadura, é o carteiro. Oh o carteiro !No reino não há cartas só há sonhos endereçados sem selo e envelope. Continuo a correr em cima de flores que falam e sorriem, faço-lhes cócegas com os dedos. Avisto um gato gordo e filosófico às riscas roxas e cor de laranja. Fumava e falava comigo por sinais de fumo. Que tontinho que ele é.
- Gato carnaval, qual o caminho para sair daqui? – pergunto eu com a mão na anca.
- Depende, onde é que tu queres chegar? – exclamava ele com ar de dandy.
- Não importa muito o sítio… - digo eu desabafando.
-Então qualquer caminho serve ! – sibilava o gato gordo.
Tudo louco nesta realidade. É a lagarta com perguntas existenciais, o coelho que não me larga sempre a lembrar-me que estou atrasada, que mundo diferente, que mundo delicioso. Troquei os pontos cardeais. Brinco às escondidas com a minha sombra. O meu coração é bucólico. A minha alma miscível com a das árvores. Tudo tem cheiro e textura. Aqui vivo a apoteose da infância. Vive-se epítomes em segundos. Aqui não existe a teleologia. Baralho o relógio e caminho ao contrário, tudo é como eu imagino.

De repente ficou escuro, alguém tinha desligado o interruptor da luz. Um homem abre uma porta. Não percebo logo quem é. Espero mais um pouco e quando ele se aproxima com aqueles ponteiros a abanar vejo que é o Sr.º Relógio. Está na hora de acordar e de fechar todas estas portas. Agora é hora de aconchegar o sonho na cama. Está na hora de ele abrir portas e sonhar. Vamo-nos revezando para o manter sempre com a porta aberta.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Um Herói, um Homem Justo, um Homem bom!



Hoje é um dia muito importante. Faz hoje precisamente 60 anos que um herói nacional morreu. Um herói pouco conhecido e reconhecido infelizmente…Ele é só a honra da nossa pátria e, nas palavras da escritora Gisèle Allotini “se os Portugueses se parecem com Ele, são um povo de cavalheiros e de heróis”.
Esse herói nasceu em 1885 em Cabanas de Viriato, era um Homem infinitamente bom, um Homem justo! Um exemplo ímpar da verdadeira grandeza de espírito. Um Homem que salvou milhares de pessoas durante o holocausto! Pugnou até ao fim dos seus dias pelos seus princípios, agarrado à máxima “Se há que desobedecer, prefiro que seja a uma ordem dos homens do que a uma ordem de Deus”. Defendia que a “hospitalidade não tem cor nem é guiada por qualquer sentimento que não seja a virtude humana de solidariedade perante a desgraça desarmada, a desgraça inocente ou o apelo desinteressado”.
Fez tudo isto contra as ordens funestas superiores e foi repreendido por isso. Expulso da carreira diplomática, afastado dos seus 15 filhos dispersos pelo mundo, foi empurrado por dedos duros e impiedosos, directivas do governo de Salazar, para a rua da miséria tendo de queimar as portas de sua casa para se manter quente. Fazia parte da fila da sopa dos pobres, morreu na pobreza em Lisboa no Hospital da Ordem Terceira e foi enterrado com as indumentárias da Ordem dos Frades Menores, tal era a sua miséria extrema.
Quem era esse Homem que teve uma vida tão injusta? Como pode um Homem tão bom ter tido um final tão frio e desconsolado? É este o preço de uma consciência virtuosa?
Entristece-me a alma pensar em como a vida e as circunstâncias podem ser tão lancinantes. Apetece-me gritar tão alto e tão veementemente até que a minha voz recue a 1939, para penetrar aquela atmosfera mórbida e dizer-Lhe que é uma pessoa inebriante. Apetece-me abanar a sociedade daquela época, o poder modorrento e inexorável e dizer-lhes nos olhos de uma forma tão profunda até lhes varar a alma que, Ele foi um dos Portugueses mais importantes que nós tivemos…
Seis décadas se sucederam desde a sua morte. A sua casa continua a lutar contra as intempéries. Vai desabando lentamente, engolindo-se paulatinamente. Cansada e desgastada pelo último inverno rigoroso vai-se vergando à inércia humana. Continua fechada, inerme e sombria a casa da família de um Homem que foi o albor de muitas vidas, que lutou contra o ambiente infausto da 2.ºGuerra Mundial, que abnegou a morte e o anti-semitismo, que possibilitou a perpetuação de famílias, multiplicação de sonhos e que protegeu o amor…
Esse Homem chama-se Aristides de Sousa Mendes, era o exemplo máximo da bondade e da coragem que trilhou o caminho para a liberdade e igualdade.
“Religião? Pouco importa, assina-se!
Origem “étnica”? Não tem importância, assina-se!
Judeu, Católico, protestante? É tudo o mesmo, assina-se!
Russo? Assina-se!
Apátrida? Assina-se
Vou salvá-los a todos” 
Era a sua promessa….
No meio do desespero da pobreza, prostrado ao opróbrio, Aristides de Sousa Mendes chegou a escrever uma carta ao Papa, à qual nunca teve resposta: "Há muito que espero que uma palavra de Vossa Eminência possa consolar o meu coração inquieto, mas essa palavra ainda não chegou (…) Há muito que perdi a confiança na justiça terrena, não, porém, na justiça divina. Se andei mal em salvar os judeus das garras do Anticristo, faça-me Vossa Eminência a caridade de mo dizer para que eu possa proclamar aos meus filhos o bem e a justiça da minha conduta para que eles possam orgulhar-se de seu pai.”


Sobem-me as lágrimas aos olhos comovidos perante tal soberbo exemplo de bondade e de grandeza. Hoje é dia de uma vénia mundial a Aristides de Sousa Mendes. Que a sua história se perpetue nos ecos do vento intemporal, nos inspire e que se aloje de forma permanente nos nossos corações para nos podermos tornar pessoas melhores, porque “quem salva uma vida, salva o mundo inteiro”, Aristides de Sousa Mendes salvou um mundo Inteiro!


terça-feira, 1 de abril de 2014

E se ninguém conseguisse mentir?

E se ninguém conseguisse mentir? E se todos nós fossemos obrigados à transparência da verdade? O que seria das nossas vidas e das nossas consciências? Até que ponto uma consciência tranquila é uma consciência verdadeira? Será que podemos ser assim tão maniqueístas?
Eu, penso que não. Não podemos viver sempre em duas cores tão fechadas que se encerram sobre si próprias. Não sou apologista da mentira eterna mas, também não sou apóstola de uma verdade prostradora. A verdade talvez seja perfeita para ciências exactas, mas não para a vida. Como se pode aplicar um conceito tão matemático e recto a uma vida tão literária com tantas curvas? Uma vida recheada de beleza, esperança e fé não se pode coadunar com a nudez de uma verdade certa, sem vírgulas, sem casas decimais. A verdade é um véu com cores infinitas, sombras intermináveis e reflexos isotéricos. A verdade deslinda-se e caminha sozinha, sonha e multiplica-se. A ambiguidade do núcleo da verdade vai do mar ao céu.
O celeuma desta questão é que o mundo inteiro sabe e acredita que um mais um são dois ou que dez menos cinco são cinco. Mas quando se fala em verdades que não têm forma e que não são palpáveis a verdade já não é assim tão verosímil. Quando se fala nos feitos de Aristides de Sousa Mendes, Nelson Mandela ou de Dalai Lama, há sempre alguém que diga que aquilo pelo qual pugnaram “não era bem verdade”. Esta obstinação pela certeza redonda e compacta desassossega-me. Toda a gente corre atrás da verdade, mas quando se desembrulha tropeçam nas buracos das dúvidas, inclinam-se de forma virtiginosa no abismo da incerteza e, ou dão um passo de fé ou um tiro no pé. Mas que verdade é essa tão tirana e ubiquista que trilha o seu caminho pelas cordilheiras vilipendiosas dos espaços da verdade? Onde começa uma meia verdade ou uma meia mentira?
A verdade está na nossa inteligência emocional, nos ouvidos do nosso coração, é acariciada pelos neurónios da sensibilidade. Mentiras? São verdades escondidas com parte da cauda de fora!




Regresso a casa


Regressar a casa e aterrar em Portugal depois de umas longas e intermináveis horas foi literalmente uma missão. Senti que a minha alma era dotada de uma elasticidade incrível, os pés em Portugal e cabeça ainda em Timor-Leste.

Chegar a casa é bom!A última recordação que tenho da porta de minha casa era das lágrimas dos meus pais e irmãos antes de partir e da agitação inconsciente dos meus cães, sabiam que algo se estava a passar mas não percebiam muito bem o quê...Timor-Leste felizmente para eles não fazia parte do léxico canino. Quando entrei no meu quarto a primeira recordação que me assolou foi a histeria da mala e dos espectrais 20 kg que ali se tinham vertido há 6 meses atrás:
-"Achas que isto tem mais de 20 kg?" - dizia eu aflita.
- "Não achas!Nem chega aos 15 kg!" - explicavam os meus irmãos. 
Enquanto isso já eu estava a pensar na cara da senhora do aeroporto que me poderia dizer hipoteticamente que teria de pagar excesso de bagagem, mas não, daquela vez passou!
Estava todo arrumadinho e diferente. A minha mãe comprou-me uma colcha nova cor-de-rosa com o meu tais colorido colocado no fundo da cama, afinal o quarto não estava igual!
Regressar é sempre um sentimento muito singular, vimos sôfregos de saudades e a transbordar novidades que se atropelam antes de lhe darmos vida, temos uma vontade infinita de mostrar aos outros aquilo que vivemos mas, não é assim tão fácil como parece. É como se o nosso cérebro estivesse em cima de um trampolim que não lhe dá descanso, e ele está ali a saltar, de um lado para o outro nas molas das perguntas sonoras das pessoas que o estimulam constantemente...e às vezes ele adormece, mas continua a saltar em constante efervescência... É engraçado as abordagens que são feitas"Já voltaste? E aquilo é giro? É muita pobreza não é? Ai agora aqui é que estás bem não é? Já não voltas mais pois nao? Tão longe..já acabou o martírio, aqui é que tu estás bem!".


Instaura-se um silêncio perturbador na minha cabeça.. é como se congelasse e começasse a reparar em cada expressão facial das pessoas fitando-as com um olhar complacente e ao mesmo tempo esboçando um sorriso lento e amarelo e quando reparo que as palavras terminaram a resposta mais comum e mais prática que me salta dos lábios é "Pois!". 
O que posso eu dizer? Que não vou voltar?Que não vou sair de Portugal seja para onde for? Que não gostei? Estaria a mentir.. e a verdade é que menti e minto...é mais confortável assim para todos. Um simples sorriso com dois significados e todos ficam contentes! 
Sento-me num café, as perguntas curiosas despontam naturalmente e aí a minha saudade ganha forma e começo a derreter-me em histórias. É bom ver no olhar das pessoas a surpresa e o espanto de coisas que existem e estão tão longe de nós e, é melhor ainda sermos nós o veículo de informação, explicarmos e descrevermos os cenários, pessoas, culturas, é como estar a pintar um quadro. Um quadro bonito e vivo, um quadro com cheiro e sabor que se vai aproximando e envolvendo cada vez mais as pessoas, e esse sentimento fugaz é único, vimos e temos consciência que criámos algo, algo que fica e que as pessoas guardam, algo com valor, é um privilégio fazê-lo! O cenário é bastante mórbido quando o desfecho é diferente, quando estamos a contar algo a alguém e essa pessoa nos diz "Ahhh, está bem, que bom! Olha sabias que o café do não sei quantas fechou? Eu sempre disse que aquilo não ia durar muito tempo!". Nestes momentos parece que levámos uma injecção de dormência, paramos e pensamos que nós estamos diferentes, já não somos os mesmos, algo mudou, muito antes de nos termos apercebido desta mutação espiritual. Regressar é bom, mas até que ponto? É bom recarregarmos baterias, recebermos os mimos calóricos dos pais e irmãos, ir aos super mercados e pensar que vai ter tudo aquilo que nós queremos comprar porque o jumbo ou o pingo doce não estão à espera que chegue o ferry boat com leite, natas ou coca-cola da indonésia. É muito bom, mas até que ponto? Qual é o prazo de validade deste sentimento? Não sei... já tentei procurar mas a validade não aparece, acho que vou ter de ser eu a estipular. O problema é que não basta alimentar o físico, é necessário alimentar a alma, e essa é uma verdadeira tirana, faz do nós o que quer, molesta-nos sem darmos conta, repreende-nos.. e o corpo lá se vai vergando e regrando pelos seus vícios e admoestando-se pelos seus caprichos. E vive-se assim, meros peões das vontades vis da alma. Não se pode fazer nada, a solução é caminhar e percorrer de mãos dadas com ela os caminhos sinuosos da vida e aprender em conjunto, pode ser que um dia se encontrem e vivam uma história de amor.
Nada é igual ao que era ontem, cada vez acredito mais que nascemos sozinhos, vivemos sozinhos e morremos sozinhos, e tal como dizia Orson Welles, "somente através do amor e das amizades é que podemos criar a ilusão, durante um momento, de que, não estamos sozinhos".


Malai na ilha do Crocodilo - Luz


Tudo passa (não é o que dizem?).
A primeira impressão é sempre dúbia e algo relutante, contudo, acaba por se tornar amenizada, híbrida e posteriormente doce. Afinal, Timor-Leste é bonito!
Após ter vivido 5 meses na ilha do lafaek, os sentimentos convertem-se. Viver em Timor é embarcar numa aventura, uma aventura onde se desconhece o ponto de chegada ou as paragens intercalares, uma aventura destemida. É uma ilha com uma história e cultura escrita a sangue, a qual ainda é bem presente nos semblantes dos locais, tudo passa, mas a dor e a mágoa persistem sempre.
Quando se viaja e transferimos o nosso pesado invólucro, que se arrasta pelo chão dos vícios, mimos e hábitos traiçoeiros é necessário criar uma distância deste, sussurrar-lhe calmamente ao ouvido e ir despindo-o devagar, como se fosse uma criança que fazer a birra. Assim ele vai cedendo, esmorecendo, as curvas plissadas dissipam-se perdendo cor e ficando mais moles. Aí é altura de o começar a moldar novamente e adaptá-lo, com calma e sensatez e educá-lo para algo que é novo e desconhecido e explicar-lhe que o que é novo não é necessariamente mau. Com tempo, as birras passam, a alma torna-se mais inócua e predisposta. Tempo de iniciar a caminhada com uma mente ávida de experiências!
Timor-Leste, o sítio onde tudo é inesperado e diferente. O sal assemelha-se a açúcar e o sal ao açúcar, quantas vezes me enganei a fazer o arroz, um arroz de tomate doce. Acaba por ser complicado decifrar certas atitudes e comportamentos, a adaptação não é automática, as coisas são desprovidas de sentido, ou então sou eu que não consigo perceber o verdadeiro âmago delas, sofre-se de miopia cultural. No início era algo que me causava algum formigueiro cerebral, mas tudo passa, e aos poucos e poucos foi passando…
No café:
“Boa tardi mana, coca-cola?” – Malai (estrangeiro)
“Sim, há!” – Mana (rapariga)
“Óptimo! Coca-cola ida se faz favor!” – Malai
“Sculpâ Senhora não há..”- Mana
“Não há? Acabou de me dizer que tinha!” – Malai
“Há mas não tem!” – Mana

Este é o cenário mais hilariante em Timor-Leste, e quem sabe está neste preciso momento a esboçar um sorriso envergonhado, pois sabem que é assim quase todos os dias, “Há mas não tem!”.
Aqui tudo se move com pés de chumbo, bem devagar devagarinho e com muita calma, os ponteiros do relógio arrastam-se e oscilam paulatinamente. Há tempo para tudo, um tempo bailarino e harmonioso sempre ao som das colunas das microletes românticas com nomes como “amo-te”, “Saudade”, “Cristiano Ronaldo”, dos apitos de saudação persistente dos táxis e das vozes inquietantes que nos assaltam com “ pulsa, pulsa, sim card?”. É Timor-Leste, não nos podemos sobrepor ao relógio local, uma coisa são os nossos tempos acelerados e conturbados, outra coisa é o tempo fleumático em Timor-Leste, tempo mole em cabeça dura, tanto acaricia que conquista! Portanto, temos aqui uma suave fricção, nada que não passe também, acabamos por nos vergar e perceber que temos de respeitar esse tempo, um tempo cansado pelo calor confortável que merece respeito!
Independentemente dos fusos horários que não são compatíveis com aqueles que o Google nos dá, percebi que os Timor é um lugar especial e que tem muito para nos oferecer, para além de ser das nações mais jovens do mundo, um país em plena adolescência, é muito bom saber que estou num sítio onde tudo se encontra num estágio extremamente vernacular e embrionário. Sei que daqui a uns anos, vou poder dizer como os meus avós “Na altura em que estive em Timor...” porque eu fiz parte, ou pelo menos tento na minha esfera pessoal mudar, ou tentar moldar, que é menos invasivo, determinados comportamentos para melhor. Não podemos entrar aqui em divergências ideológicas e culturais do que é melhor ou não para um povo. Penso que para decifrar este pequeno enigma, basta pensar que o melhor é algo que os vai ajudar futuramente, só pelo facto de poderem ter a oportunidade de terem a opção, depois se o fazem ou não, já não depende de mim nem de ninguém, mas tiveram opção de escolher, avaliar e interpretar. É de facto uma experiência única poder estar em Timor, a única coisa que nos torna ricos é viajar, que para tal também é necessário ter oportunidade e disponibilidade. É algo que ninguém nos pode locupletar, podem-nos tirar tudo na vida, penhorar sonhos, hipotecar sentimentos, mas, aquilo que vivemos e sentimos é nosso, e isso está guardado num cofre à prova de estereótipos e inveja. Já faz parte de nós, do nosso adn!
Obrigada Timor! Obrigada Timor por fazeres de mim uma pessoa melhor, por me reiterares a ideia de que estamos em constante mutação espiritual, por me ajudares a encontrar 10% de mim própria, por me ensinares que posso comer arroz e frango com uma colher, que posso viver com menos daquilo que eu pensava, que posso tomar banho de água fria e não me queixar, por me fazeres deixares de gostar de expresso e apreciar café timor, por me tornar uma pessoa mais benevolente, pela maravilhosa água de côco que me ofereces, pela companhia deambulante, por me fazeres crer que a vida é aquilo que nós queremos que seja e por todos os momentos e experiências boas que me ofereceste que fizeram crescer a minha inteligência emocional!
Se isto fosse quantificável teria de pagar um excesso de peso colossal, teria de me chatear no aeroporto e tentar “subornar” a hospedeira tão querida do aeroporto de Díli, o que me vale é que as máquinas do aeroporto, portadoras de uma tecnologia de ponta, ainda só detectam a quantidade e não a qualidade!


Uma Malai em Díli



Dia 28 de Abril de 2012 Chegada a Díli, Timor-Leste


Aterrar em Díli, foi como ter aterrado em outro planeta!
Uma confusão tremenda, mal saí do avião senti logo na cara o ar quente e perfumando de Timor-Leste! 
O céu estava carregado, e mal saí do aeroporto caiu um verdadeiro dilúvio.
"Começar de novo" era a frase que me pairava na mente a cada km que era feito.
 Era tudo novo e tudo diferente, nada era igual ao que eu já tinha visto, nem tão pouco se assemelhava a Africa,Vietname ou à Indonésia, era Timor Leste!
Senti que estava completamente anestesiada, não falava, só ouvia e parecia tudo tão estranho, quanto mais ouvia as pessoas a falar, com um discurso seguro, confiante e com um sorriso no semblante mais pequena eu ficava.
Tentava colmatar estes sentimentos que literalmente me assolavam os pensamentos sem sequer pedir permissão com panaceias instantâneas, "tudo tem um motivo de ser", aquela frase de âmago gigantesco e profundo que exala água oxigenada para as feridas momentâneas da alma e as desinfecta e mitiga. É confortável pensar assim, pelo menos temos um norte que subjaz a tudo o que fazemos, mesmo que seja um disparate. Os meus sentimentos chatearam-se e decidiram dividir-se 70% nadava em completa amorfidade e os restantes drogados 30% estavam em completa letargia, os quais foram vencidos rapidamente pelo jetlag.
De vez em quando lembrava-me, estou em Timor, essa informação ainda não tinha sido muito bem processada pelo meu cérebro, mas a minha sombra de 22 kg em forma de mala que me perseguia para todo o lado ajudava-me a lembrar disso a cada instante. Só me lembrava da alegoria da caverna de Platão, mas é uma alegoria mais personalizada a minha e com contornos diferentes em que eu inverto o objectivo da alegoria, neste caso as amarras a velhas crenças e pensamentos até se avistavam bastante cómodas e suaves, não as queria libertar, eram o meu invólucro que me protegia e abrigava e que já tinha a forma do meu corpo. Estava claramente em processo de negação!
Quando estava na cama, depois de um dia que mais pareciam 5, lembrei-me de uma oração que me embalou e ajudou a adormecer " Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. é o tempo da travessia, e se não ousarmos fazê-la, teremos ficado sempre à margem de nós mesmos".

Ámen